
Milhares de venezuelanos saíram hoje às ruas do leste de Caracas para celebrar a vitória do “não” – por pouco mais de 50 por cento – no referendo de ontem sobre a reforma constitucional proposta pelo Presidente Hugo Chávez, que já admitiu a sua derrota.
Cerca das 04h00 horas locais (8h00 horas em Lisboa), quase três horas depois de o Conselho Nacional Eleitoral ter divulgado os resultados, formaram-se cortejos automóveis, com buzinas, foguetes e tambores, pelas avenidas de Las Mercedes e Chacao.
Em Altamira (Chacao) os opositores à reforma constitucional ocuparam a Praça de França, local emblemático para a oposição, pois foi ali que em 2002 dezenas de militares se declararam em desobediência ao regime do presidente Hugo Chávez.
Os manifestantes cantavam canções em apoio à RCTV, o mais antigo canal de televisão do país, forçado a deixar de transmitir em finais de Maio último porque o presidente venezuelano decidiu não renovar a licença, argumentando que era “golpista”.
Também canções alusivas ao futuro, com expressões como “eu fico na Venezuela porque sou optimista” e “não há mal que dure cem anos”, se ouviam pelas ruas do leste da capital.
Em contraste com o que acontecia naquela zona da capital e em diversos Estados venezuelanos, as ruas do centro de Caracas, onde tradicionalmente se concentram os simpatizantes do presidente venezuelano, permaneciam vazias, contando-se pelos dedos os escassos veículos que passavam.
Presidente admite derrota
Vestido com uma camisa encarnada, o Hugo Chávez afirmou, no seu discurso de derrota: “Agradeço a quem apoiou o caminho que traçámos em direcção ao novo socialismo, mas igualmente a quem votou contra. Mostraram ao mundo, e a si mesmos, que a Venezuela é uma democracia viva. Agora, do coração, vos peço que esqueçam os saltos para o vazio (conspirações) e se unam a nós na construção de um país melhor”.
O Presidente indicou ainda que lhe foi difícil reconhecer o resultado, quando ainda faltava uma percentagem de votos por contabilizar: “Pensei por um momento que, dada a escassa margem de vantagem do adversário, podia haver uma reviravolta a nosso favor. Mas logo decidi que antes de mais está a união da Venezuela e actuei segundo me ditava essa consciência”.
A vitória do “não” foi uma surpresa para todos, uma vez que as três sondagens feitas à boca das urnas indicavam ontem que os venezuelanos tinham decidido avançar com a reforma constitucional que, segundo o Presidente, era “uma fórmula” para “converter a Venezuela numa potência mundial e, segundo os seus opositores, era antidemocrática, outorgar-lhe-ia “poderes imperiais” e eterniza-lo-ia no poder.